REFLEXÕES SOBRE A HISTÓRIA DO JUDÔ NO BRASIL:
A CONTRIBUIÇÃO DOS SENSEIS UADI MUBARAC (8º DAN)
E LUIS TAMBUCCI (9º DAN)

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1. INTRODUÇÃO

O Judô é uma arte marcial que possui origem relacionada a religiosidade e cultura japonesa, difundiu-se pelo mundo divulgando costumes e o modo de vida nipônico. Chegou ao Brasil e tornou-se a modalidade esportiva que hoje, segundo Lucírio et al., 1997, possui o maior número de praticantes no país, ou seja 2 milhões de praticantes. Tornou-se esporte olímpico em 1964 em Tóquio (Lancellotti, 1996), como modalidade de demonstração e em 1972 foi incluído como modalidade oficial na olimpíada de Munique (Lancellotti, 1996).
O Judô já é um esporte centenário e com origens milenares, pois deriva do Ju-jitsu (Kodokan, 1955), mas mesmo com o seu sucesso, tanto como sua divulgação em todo país, tanto quanto as vitórias obtidas pelos seus atletas em competições internacionais, muito pouco tem-se estudado sobre esse esporte no Brasil.

2. REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Criação e divulgação do Judô: do Japão para o mundo

A criação do judô é atribuída a Jigoro Kano, nascido em 28 de outubro de 1860, em Mikage, distrito de Hyogo, filho de Jirosaku Maresiba Kano (Kodokan, 1955), sendo de baixa estatura, medindo 1,50 metro e pesando apenas 50 quilos. Entretanto, "compensava seu pequeno porte com tenacidade, coragem e sobretudo grande inteligência" (Virgílio, 1986). Iniciou o treinamento de Jiu-Jitsu com dezessete anos com o mestre Fukuda da Escola Coração do Salgueiro, treinou também com mestre Iso, e Iikugo. Buscou conhecimento em outras escolas que permitiram formar o conjunto de técnicas, regras e princípios que vieram a constituir o Judô (Virgílio,1986).
Kano foi um cidadão ímpar no Império japonês, acumulando diversas funções e Honrarias, sendo "Professor Universitário, vice presidente e reitor do Colégio de Nobres, adido do ministro da Casa Imperial, conselheiro do Ministro da Educação Nacional, diretor da Escola Normal Superior e ainda secretário da Educação Nacional, galgou os degraus da Escala Imperial Japonesa, chegando ao segundo grau após sua morte" (Virgílio, 1986). Em 1922, passou a dedicar-se exclusivamente ao Judô, sendo professor Honorário da Escola Normal Superior de Tókio e Conselheiro do Gabinete Japonês de Educação Física. Seu nome foi perpetuado como educador e esportista que foi, sendo considerado o "Pai da Educação Física do Japão" (Virgílio, 1986).
No final da década de 1870 e início de 1880, Jigoro Kano inicia um estudo sistemático das artes marciais, já com a iniciativa de montar sua própria escola o Kodokan (Kodokan, 1955). Notava o empirismo das escolas e dos métodos da época, estas estando muito mais preocupadas com seus segredos e em ignorar os valores de outras, que propriamente progredir na busca da perfeição técnica e moral. A rivalidade entre escolas foi tão grande que uma procurou destruir outra a qualquer meio. Kano preocupou-se com a falta de ética e moral do Jiu-Jitsu e também a inexistência de princípios pedagógicos e científicos e ainda mais os perigos que essas técnicas representavam. Assim retirou-se com alguns alunos para o templo budista de Eishosi onde estudou e analisou as técnicas mais evidenciadas na época, separando o que havia de bom, criando novas quando necessário e surgindo então, um novo método para fusão de técnicas do antigo Jiu-Jitsu e dos princípios pedagógicos, morais e éticos (Kodokan, 1955).
Kano criou a Kodokan, instituto que existe até os dias de hoje, em fevereiro de 1882, e seus primeiros e principais alunos foram Tsunegiro Tomita, Yoshiaki Yamashita, Shiro Saigo, Sakugiro Yokoyama.( Kodokan,1955). Nesta fase o Judô se consolida no Japão (Virgílio, 1986). Segundo Suzuki (1986), a divulgação do Judô para o mundo dava-se pelo próprio Kano, que era por meio de explanações, demonstrações práticas à elite ocidental que residia ou visitava o Japão; segundo Virgílio (1986), em 1889 a 1891, ele percorreu a Europa, realizando conferências e demonstrações, e em 1902 e 1905, esteve na China.
Conforme Soares (1977), determina quem serão alguns dos divulgadores do Judô no mundo, além do sensei Kano. Segundo seus dados temos que Gunji Koisumi introduziu o Judô na Grã-Bretanha, Ishiguro e Kawaishi na França, Bélgica, Espanha e Países Baixos. Também existem dados que coexistiam nos Estados Unidos, cerca de 30 dojos onde lecionavam professores japoneses, sendo que um instrutor de nome Yamashita, teve por aluno o presidente Theodor Roosevelt, ainda conforme Soares (1977),.
Segundo as Mil lutas de Conde Koma, citado na História Seriada (s.d.) seus alunos Mitsuyo Maeda (o próprio Conde Koma), Tomita, Satake, Ono e Ito começam em 1906 a difundir o Judô nas Américas, inicialmente nos EUA, passando depois pela América Central, até que Maeda transferiu-se para o Brasil.
Kano sempre preocupou-se com a difusão da sua arte e com o esporte, sendo que ele morre aos 77 anos em 04 de maio de 1938, voltado do Cairo onde estava participando da Assembléia Geral do Comitê Internacional dos Jogos Olímpicos (Virgílio, 1986).
Com o surgimento das federações, em vários países realizaram os primeiros campeonatos, consequentemente em 1948, surge a União Européia e em !949, a União Asiática, (Soares, 1977). O primeiro campeonato Europeu ocorre no ano de 1951 em Paris, neste evento fundava-se a Federação Internacional de Judô, que teve como 1º presidente Risei Kano, filho do fundador (Soares, 1977). Este autor também relata a fundação da União Pan-Americana, fundada em 1952, por ocasião de seu 1º campeonato, em Tókio, no ano de 1956, elegendo Natsui como grande campeão, dando ao Japão o titulo máximo. Outro fato que convém relatar é o surgimento da União Africana de Judô em 1963 (Soares, 1977).

2.2. O Judô no Brasil.

Neste capítulo discutiremos como o Judô foi introduzido no Brasil, sua institucionalização e as primeiras competições, atletas e academias.

2.2.1. A introdução do Judô no Brasil.

Trabalhos elaborados sobre a Historia do Judô dentro do Brasil são muito raros, sendo poucas publicações específicas. Alguns relatos são mencionados na introdução de livros técnicos ou trabalhos gerais (Virgílio,1986 ; Manual de Educação Física, 1979; Soares, 1977; MEC, s.d.; Garcia, 1995; Amorim, 1997). Nestes trabalhos relacionam o pioneirismo de Mitsuyo Maeda na demonstração, divulgação e introdução do Judô no Brasil. Já Hunger (1995), cita que o "Judô chegou no Brasil em 1908, 26 anos depois da fundação da Kodokan", além de relatar a escassez da bibliografia sobre o assunto, relatando apenas em 1922, surge no país o nome de Maeda.
Calleja (1979), relata a importância da imigração japonesa para introdução do Judô no país, e diz "tal fato ocorreu de forma desordenada e sem nenhum planejamento. Lamentavelmente, não houve uma missão oficial, com o intuito de divulgar, segundo os princípios da Kodokan", o que seria realmente o novo método do ju-jitsu. Esse relato demostra a dificuldade de determinar as formas de introdução e divulgação do início do Judô para o país. Apoio para esta idéia advém do professor Massao Shinorrara (9º Dan) em Virgílio (1996), que afirma que o judô foi implantado no Brasil por volta do ano 1908 ou pouco mais, com o advento da "imigração japonesa, cujo primeiro contingente chegou ao porto de Santos em 18 de junho de 1908, a bordo do navio Kasato Maru, com referências ao Judô, entretanto não há registros de nomes, datas e locais". Coloca-se portanto que o Judô nesta primeira instância veio para o país de forma agregada a cultura do imigrante japonês, que eram principalmente agricultores.

2.2.2. Conde Koma

O personagem que mais possui crédito para ser considerado o precursor do judô no Brasil é o Conde Koma, cujo nome seria Mitsuyo Maeda (Hunger, 1995), ou como alguns autores citam, Eisei Maeda (Calleja, 1979), apesar de ter aparecido anos após a entrada dos primeiros imigrantes japoneses, Maeda vem como divulgador do Judô e Jiu-jitsu. Segundo a Biografia de Maeda na História Seriada (s.d.), Maeda veio para a América, primeiramente nos Estados Unidos como enviado especial da Kodokan para divulgar o Judô, coloca-se ainda que vieram junto com ele quatro personagens importantes, Tomita, Sakate, Ono e Ito, percorrendo desde os Estados Unidos, América Central até a América do Sul. Vieram para divulgar a "arte do Kodokan" por demonstração e em combates de desafios ("Vale Tudo").

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Foto 1-Conde Koma, imobiliza adversário em combate em Manaus, Déc. 10 (Revista IPPON).

Existe uma controvérsia sobre a chegada de Maeda no país, alguns autores adotam datas diferentes para a sua chegada, como Calleja (1979) que cita final da década de 20 e início da de 30, Virgílio, (1986), início da década de 20, Soares (1977), determina 22, junto com Hunger et al. (1995), entre outros autores, recentemente, porém, em artigo na revista Judô, Rildo Eros, relata a chegada do Conde Koma, através da cópia do passaporte de Maeda cedido por Gotta Tsutsumi (Presidente da Associação Paramazônica Nipako de Belém, revela que sua chegada ao Brasil teria sido em Porto Alegre no dia 14 de novembro de 1914 teria ganho o apelido de Conde Koma devido a sua elegância e semblante sempre triste. no Brasil ele teria percorrido o caminho de Porto Alegre onde teria se exibido pela primeira vez, seguindo depois para o Rio de Janeiro, São Paulo , Salvador, Recife, São Luiz, Belém (outubro de 1915) e finalmente em Manaus, no dia 18 de dezembro do mesmo ano. "A primeira apresentação do Grupo Japonês em Manaus, intermediado pelo empresário Otávio Pires Júnior, foi em 20 de dezembro de 1915, no teatro Politeama", sendo apresentadas técnicas de torções, defesas de agarrões, chaves de articulações, demonstração de armas japonesas e desafio ao público. Hunger et. al. (1995), coloca que Maeda teria também oferecida seus serviços para "a Academia Militar e o Exército, os quais incorporaram a prática do Judô no treinamento dos Militares".
Virgílio em 1986, afirma que Maeda haveria criado uma escola em Belém do Pará, onde teve relativo sucesso, sendo que falecera nesta cidade em 1941. Virgílio também coloca que dos vários alunos que frequentaram sua academia, restou apenas a família Grace para dar continuidade ao seu trabalho, tendo progredido e fundado novas escolas em algumas capitais e projetando no cenário esportivo Brasileiro.

2.2.3. Imigração Japonesa.

Vários autores também concordam com o surgimento da prática do judô devido a imigração japonesa desde o ano de 1908 (Soares, 1977; Virgílio, 1986; Calleja,1979;Hunger et al., 1995), pelo caminho já mencionado pelo professor Massao Shinorrara (ver item 2.2.1.), mantendo segundo estes autores uma difícil chance de divulgação ao público em geral pela prática ser mantida apenas em suas colônias. Por esses fatores, apenas aparecem as citações sobre a presença deste fato, porém com pequenas referências e conhecimento de como eram essa prática e seus principais personagens. Contribuindo para as contradições existentes, há um relato em Virgílio (1996), que refere-se a um professor Miúra , que haveria ensinado o Judô em 1903.

2.2.4. Participações complementares para o desenvolvimento do Judô nacional.

Outros personagens também apresentam-se como importantes perante a iniciação da consolidação do judô nacional, entre eles Soares (1977) destaca, que a maior difusão se deu em São Paulo e Rio de Janeiro, por onde passam ou surgem grandes praticantes. O autor destaca a importância da presença do professor Kotani no país em 1939. Ainda Soares (1977) considera que Takeo Yano, Yassuiti Ono, Teronozuke Ono, Noburo Ogino, Ogawa, Omar Cairuz como os precursores do Judô e determina também que "a denominação Judô aparece pela primeira vez com a Academia Cordeiro".
Existem referencias de um Japonês de nome Takaji Saigo, podendo ser ligado a Kodokan. Este abriu uma academia em São Paulo. Outro personagem é Geo Onori, que em 1929, demostrava o Judô em circos e aceitava desafios (Hunger et al., 1995).
Já Virgílio, 1986, apresenta o nome de Tatsuo Otoshi que chega ao Brasil em 1929, seguido de Katsutoshi Naito, Sobei Tani, Ryuzo Ogawa e outros como referência a grupos que se formaram como conseqüência da chegada do Kasato Maru. Também distingue-se a presença de Yasuichi Ono, que chega em 1928, que devido a sua dedicação pelo Judô, "fez juz a que seu nome fosse inscrito com todo mérito na História do nosso esporte" (Virgílio, 1986), Ono abre sua "academia-mãe" em 1932.
Virgílio (1986) também define o trabalho de Ryuzo Ogawa, que chega ao Brasil em 1934, como sendo um idealista que objetiva um trabalho iniciado em 1938 para organizar e difundir o Judô com grande amplitude e ideais mais elevados. Ele procura separar o Judô definitivamente do Jiu-jitsu, projetando o esporte na preferência dos brasileiros. "Esse trabalho foi a conquista final para a confirmação do Judô no Brasil" (Virgílio, 1986).

2.2.5. Evolução de prática corporal para modalidade esportiva.

O Judô como prática corporal oriental, torna-se durante as últimas décadas em modalidade esportiva, surgindo a federação de âmbito internacional, estabelecendo as regras e padronizando as técnicas (Hunger t al., 1995). No Brasil, antes da fundação das federações específicas, o Judô, que era associado ao Jiu-jitsu, sofria diversas interpretações e a Federação Brasileira de Pugilismo, que controlava os "esportes de ringue" define as regras dos encontros das lutas no Brasil em 1936 (MEC, s.d.). Calleja (1979), aborda o surgimento de uma entidade não oficial no período de 1933 até 1942, denominada Federação de Judô e Kendô, que "tenha divulgado e preconizado o verdadeiro Judô Kodokan" (Calleja, 1979), mas existe a necessidade que se criassem entidades oficiais de acordo com a legislação vigente, fato esse que culmina com a fundação, em 1958 da primeira "federação especializada em Judô: a Federação Paulista de Judô" (Calleja, 1979).

2.2.5.1. Fundação das Federações e da Confederação Brasileira de Judô: a institucionalização como modelo esportivo.

Calleja (1979), coloca como um dos principais fundadores da Federação Paulista de Judô e presidente durante 10 anos consecutivos o Dr. José Lúcio Moreira da Franca. E que após o pioneirismo de São Paulo, outros Estados pouco tempo depois fundaram suas Federações: Minas Gerais e Paraná.
A Confederação Brasileira de Judô órgão máximo do país, segundo Sugizaki (s.d.), fora "fundada em 1969, sendo reconhecida somente a partir de 1972", contando com 23 federações estaduais. Segundo ainda Sugizaki (s.d.), a Federação Paulista conta atualmente com mais de 300 clubes e associações desportivas filiadas.

2.2.5.2 Primeiras competições no Brasil.

Soares (1977), aponta a primeira competição da Budokan, em São Paulo, em 1948. Já o primeiro campeonato Brasileiro, realiza-se entre 14 e 16 de outubro de 1954, evento este sediado pelo Tijuca Tênis Clube do Rio de Janeiro, contando com a participação dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e o então Distrito Federal, lembrando que, foi realizado antes da fundação da Confederação Brasileira de Judô, portanto este evento estava "sob os auspícios da Confederação Brasileira de Pugilismo" (Soares, 1977).

2.2.5.3. Atletas Olímpicos que foram destaque para o Judô Brasileiro.

A História do Judô nos Jogos Olímpicos começa em Tókio, 1964 (Lancellotti,1996a), sendo apenas como demonstração, apenas retornando como modalidade oficial dos Jogos em Munique, 1972. A participação Brasileira está presente, segundo Lancellotti (1996a), desde Tókio, obtendo destaque para Lhofei Shiozawa, obtendo 5ª colocação entre os médios (na época de 68 kg até 80 kg). Em Munique, o Brasil conquista a primeira de suas muitas medalhas no Judô com Chiaki Ishii bronze no meio pesado (80 a 93 kg) além de obter o 7º lugar entre os absolutos. Em Los Angeles, 1984, três atletas conquistam medalhas para o Brasil, o peso leve Luís Omura (63 a 71 kg) e o peso médio Walter Carmona (78 a 86 kg) conquistam as medalhas de bronze e o meio pesado Douglas Vieira (86 a 95 kg) foi medalha de prata. Em Seul, 1988 surge a primeira medalha de ouro para o Judô brasileiro, com o meio pesado Aurélio Miguel. Em Barcelona, 1992, o meio leve Rogério Sampaio Cardoso conquista o ouro na competição. Em Atlanta, 1996, segundo Lancellotti (1996b), dois atletas conquistam a medalha de bronze, são eles, o meio leve Henrique Guimarães e novamente o meio pesado Aurélio Miguel, outro destaque brasileiro nessa olimpíada é Edinanci da Silva que foi a primeira mulher classificada em 7º lugar em uma olimpíada.

2.2.6. Da academia à Academia: o Judô como tema de pesquisas na Universidade

O Judô faz parte do currículo de muitas Universidades Brasileiras, e hoje verificamos que dentro delas, apesar de poucas, já encontram-se pesquisas desenvolvidas tendo a modalidade como tema. Pode-se citar algumas como exemplo, Borges, 1989 (dissertação de Mestrado), as monografias Viana (1980) Cavazani (1991), Amorim, (1993), Drigo (1994),

2.3. Recuperando a História do Judô por seus pioneiros.

Segundo Hunger et al. (1995), a história oral permite complementar a historia documental e bibliográfica, e sugere que existem "fatos do desenvolvimento do Judô em nosso país ainda não relatados e arquivados" (Hunger et al., 1995).
Segundo Thompson (1993), a importância da História oral é que ela devolve a História das pessoas em suas próprias palavras, dando-lhes um passado e assim, auxiliando para o futuro.

3. OBJETIVOS

O presente trabalho tem como objetivo estudar elementos Históricos do Judô brasileiro, além de comparar, registrar e organizar a Historia Oral dos senseis Uadi Mubarac (8º grau, 50 anos de prática) do interior de São Paulo e Luiz Tambucci ( 9º grau, 66 anos de prática) da capital paulista, ambos professores de grande expressividade na política judoísta de São Paulo e inseridos no contexto Histórico do estado por fazerem parte da edificação e solidificação do Judô.

4. METODOLOGIA

4.1. Revisão Bibliográfica

Para verificar os aspectos relevantes a História do Judô no País, foi feita uma Revisão Bibliográfica com levantamento da produção teórica do objeto de estudo, neste caso o Judô.

4.2. Entrevistas com os senseis

Para a entrevista com os professores foi elaborado um roteiro (anexo 1), de acordo com as necessidade do estudo. A entrevista foi feito de forma que o professor tivesse liberdade para poder desenvolver temas de acordo com sua memória, mesmo que não presente no roteiro, para recuperar o máximo de informação que estes mestres do Judô possam oferecer.

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para este estudo os resultados obtidos entre as entrevistas e a revisão da literatura serão comparados enquanto enunciados, a totalidade das entrevistas com os professores estão em anexos. É de interesse também deste estudo verificar algumas diferenças entre a realidade dos professores da capital e interior do estado de São Paulo.
Através da análise das entrevistas e da revisão da literatura percebe-se fatos coerentes, mais o que fica claro é que a introdução do Judô no Brasil, foi realmente fruto da imigração japonesa e, conforme Calleja (1979) coloca, foi sem muita estrutura e não ocorre uma missão enviada diretamente pela Kodokan para a sua divulgação. Segundo a entrevista com o prof. Tambucci, esses imigrantes tiveram muitas dificuldades, principalmente com a cultura e língua, tornando-se fechadas, ou talvez xenófobas, e com isso o Judô ficou retido nessas comunidades durante muito tempo. Ainda hoje faltam dados sobre a estrutura real destes locais. O professor Tambucci também relata que a aproximação com outros imigrantes, principalmente os italianos, devido a um início de comunicação através de mímica, pôde favorecer o entendimento entre eles e assim promover uma possibilidade de divulgação. Nesta época também percebe-se que Judô e Jiujitsu eram muito próximo, como Calleja (1979) cita, o "método jiujitsu de Jigoro Kano", idéia é reforçada pelo professo Mubarac, quando coloca que no início de sua vida esportiva ele não sabia a diferença entre as modalidades. Outra forma que percebe-se a introdução do esporte no país é que ele não possui um ponto de convergência, não existe dados da literatura consultada nem nas entrevistas que permita verificar onde realmente foi a localidade onde se enraizou e se difundiu o Judô.
O surgimento do Conde Koma, é posterior ao Judô oriundo da imigração dos agricultores japoneses, como é visto na literatura, alguns autores o colocam como precursor do Judô e Jiujitsu no Brasil devido, pela coerência da literatura e pelas entrevistas, ao Maeda ser um "lutador de desafios", ele fazia demonstrações e desafios desde a América do Norte até o Brasil e, apesar de ter treinado a Família Grace (Virgílio, 1986), não existe a continuidade de seu trabalho com o Judô, segundo o Prof. Tambucci, os discípulos de Maeda não aceitam o Judô, dando continuidade apenas ao trabalho de Jiujtsu. Na atualidade, como verifica-se em entrevistas com o Hélio Grace (84 anos) na Folha de São Paulo (1997), aluno do Conde Koma, relata que o próprio Conde é quem traz o Jiu-jitsu para o país mas que ele desenvolveu e aperfeiçoou a técnica aprendida, transformando-a na Técnica Grace de Jiu-jitsu. O que este trabalho denota é que a contribuição de Mitsuyo Maeda, não é de introduzir o Judô no país, mas sim de difundir e apresentar o Judô para o público em geral, o que não ocorreu anteriormente. Maeda portanto iria iniciar uma prática de demonstrações e aceitar desafios, a qual seria também o recurso de muitos outros lutadores posteriormente, conforme enunciado na revisão da literatura e pelas entrevistas, onde consta que diversos professores praticaram lutas de "vale-tudo". Esses dados sugerem que houveram duas linhas distintas de desenvolvimento do Judô e Jiu-jitsu no Brasil (figura 1).
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As lutas de vale-tudo fizeram parte do início do Jiu-jitsu e do próprio Judô, pois as duas modalidades se confundiam na época, sendo que o método de Jigoro Kano diferenciava apenas na presença do Dô, ou caminho em japonês, passando de arte flexivel (Jiu jitsu) para caminho da suavidade ou flexibilidade (Judô ), como é relatado por Calleja (1979). Até o surgimento de regras específicas e consequente formação das federações no Brasil os estilos se missigenavam. As primeiras lutas eram, segundo o prof. Mubarac, sem contagem de pontos, mas por desistência ou nocaute, podendo até mesmo existir fatalidades. Estas disputas, acabaram sendo regulamentadas pela Federação Brasileira de Pugilismo com as primeira regras criadas feitas em 1936, segundo MEC (s.d.). Muitos personagens foram descritos pela literatura nas entrevistas. Ficou claro que o ringue era perigoso para uma prática do Judô como esporte, pois limita a área de projeção. Como visto nas entrevistas o piso para os locais de treinamento eram variados, podendo ser desde gramados até alguns pisos adaptados, como o tatame de palha de arroz, a serragem baixa, ou acolchoados de algodão.
As mudanças das regras que inicialmente, segundo as entrevistas, só existia o ippon e wazari, começa a diferenciar bem os dois estilos. Nesta fase o Judô cresce como esporte, até a formação da Federação Paulista de Judô em 17/04/58, segundo dados do professor Tambucci. As regras iniciais valorizavam a luta por ippon, o golpe perfeito, não havendo estímulos para a combatividade e o combate era dirigido por um árbitro apenas (hoje são 3, um principal e dois auxiliares). Com isso, verificamos reações distintas entre os entrevistados, o professor Tambucci tem opinião favorável para esta época, contrário ao Professor Mubarac, que apoia as mudanças ocorridas, segundo ele após a Olimpíada de 1964 (Tókio), onde passa a aparecer os pontos intermediários, koka e yuko, e as punições por falta de combatividade.
As primeiras academias de Judô no país segundo o professor Tambucci, eram espalhadas pelo Estado e a Cidade de São Paulo de acordo com alguns pontos de colonização japonesa. No interior ele recorda, Suzano, Mogi das Cruzes, Bastos, Araraquara, Avaré, e Lins. Avaré foi a cidade de onde surgiu o primeiro campeão mundial universitário de Judô Brasileiro, Matheus Sugisaki, lembrado pelo prof. Mubarac. Na capital, as primeiras academias seriam as dos professores Ono, Ogawa, Tambucci e Kurachi.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho sugere que possivelmente a introdução do judô no país deve-se mais a colonização japonesa, ocorrida em 1908, do que ao Conde Koma. Mas para a confirmação desta hipótese, necessitaria de um número maior de entrevistados e uma busca documental sobre as colônias japonesas propriamente ditas.

7. CONCLUSÃO

Pelo trabalho podemos concluir que mais estudos são necessários para determinar a História do Judô no país, considerando que não existem muitos dados disponíveis na literatura que possam definir o assunto. Conclui-se também que o conhecimento dos senseis mais antigos podem auxiliar a construção do passado desta modalidade esportiva no Brasil.:

8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BORGES, O.A. Estudo sobre a eficácia do kumi kata em lutas de Judô. São Paulo, 1989. 47p. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Escola de Educação Física, Universidade de São Paulo.

BORTOLE, C. Muda a História. Revista Judô, ed. Ippon, ano 1, p.10-1, 1997.

CALLEJA, C.C. Judô. In: BORSARI, J.R. & FACCA, F.B. (Coord.) Manual de Educação Física. São Paulo: EPU, 1979.

COMITÊ D’EDITION KODOKAN. Judo Kodokan Illustré, Tokio: Dai-Nippon Yubenkai Kodansha, , 1955.

DRIGO, A. J. Condição aeróbica e anaeróbica de judocas: Estudo pelo lactato sanguíneo. Rio Claro: UNESP, Instituto de Biociências, Departamento de Educação Física, 1994.

GARCIA, C.O. Ciência e tradição na aprendizagem de Judô: Estudo comparativo com crianças de 7 a 12 anos. Rio Claro: UNESP, Instituto de Biociências, Departamento de Educação Física, 1995.

HUNGER, D. et al. Projeto de pesquisa: O Judô Brasileiro e sua memória. In: III Encontro nacional da História do esporte, lazer e Educação Física. P.314 a 321, 1995

LANCELLOTTI, S. Olimpíada 100 Anos. São Paulo: Ed. Nova Cultural e Circulo do Livro, 1996a.

LANCELLOTTI, S. Olimpíada 100 Anos: Jogos de Atlanta. São Paulo: Ed. Nova Cultural e Circulo do Livro, 1996b.

MEC. Caderno técnico-didático de Judô, s.d.

MIL LUTAS do Conde Koma, As. Budô. Editora Top, p.23-6, s.d.

SOARES, P.L. Estudo sobre a adequação do judô às condições de operacionalização no ensino superior. Rio de Janeiro, 1977. 36p. Monografia – Universidade Federal Fluminense.

SUGISAKI, M. Curso de Judô, s.d. (mimeografado)

SUZUKI, E. O pai da educação integral e o universo do Judô. Editora do Escritor, São Paulo, 1986.

THOMPSON, P. O tempo, a disciplina do trabalho e o capitalismo. In: SILVA,T.T.(org.). Trabalho, educação e prática social. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

VIRGILIO, S. .A Arte do Judô. 2 ed. Campinas-SP: .Papirus, 1986.

ANEXOS

 

As entrevistas estão apresentadas na mesma linguagem utilizada pelo entrevistado.

Anexo 1 - Roteiro de Perguntas para Os senseis.

  1. Nome, anos de prática, graduação.
  2. Como iniciou, qual o seu 1º e o seu mais importante sensei com que praticou judô
  3. a)Quais as características que ele(s) possuía(m).
    b)Quais as características do dojo e sobre a turma desta época.

  4. A História do Judô no Brasil está muito mal estruturada, faltando muitos dados. Praticamente só existem dados e relatos sobre o Conde Koma. Muitas comunidades japonesas treinavam o Judô contemporaneamente ao sensei Maeda e são inexistentes neste relatos. Portanto, devido ao seu grande conhecimento e vivência nesta prática, seria de interesse para este estudo que pudesse narrar e citar o máximo de informações desta História e de sua própria história.
  5. Se não for totalmente narrado com a pergunta, estimularia o sensei a responder sobre:
    a) Histórias sobre Conde Koma e sua proximidade com ela e seus alunos.
    b) Quais as principias comunidades japonesas que treinavam judô em seu início tanto no País e no estado de SP, quais delas o senhor mais teve maior contato.
    c) Como essas comunidades difundiram o seu judô pelo Brasil.
    d) Como foram os primeiros campeonatos ou torneios de Judô no país e no estado. Quais os que o Sr. participou que mais te marcaram.
    e) Como foram criadas e quais as primeiras academias de Judô no país e no estado.
    f) Em que contexto foram criadas a CBJ e FPJ.
    g) Quais os personagens, alem do Sr. que fazem ou fizeram história do judô no país. Quais estão vivos? Onde?
    h) Quais as grandes dificuldades que o senhor e o Judô enfrentaram para se tornarem o esporte mais praticado no país.

  6. Todas as informações sobre o próprio sensei, tudo o que o senhor achar importante revelar sobre sua carreira e sua vida.
  7. Qual a importância do Judô para o Senhor e nossa Sociedade.
  8. O problema da institucionalização do Judô como modalidade esportiva? ( Judô como prática X Judô Competição).
  9. Existe alguma relação, para o senhor entre Judô e Educação Física?

Anexo 2-Entrevista com o professor Luís Tambucci

A primeira competição foi por volta de 1935 ou 36, por aí. O judô começava a ser difundido em competições tendo como a Associação de Judô Kendô ou Budokan Judô Kendô, a competição no Largo da Concórdia. As demais eram realizadas no Pacaembú e as primeiras no Pacaembú eram realizadas em cima de ringue, tinha cordas de boxe, porque ainda não havia tatame. Eu competi numa dessas. Lembro-me que recebi um Ushiro-goshi que estou caindo até agora. Foi Wazari, no ringue. Tinha fim por Ippon não tinha peso.
O melhor daquela época era difícil citar os nomes e depois surgiu outros. Eu posso arrumar o nome de todos eles. Nessa época começaram a chegar muitos imigrantes japonês e entre eles grandes mestres que se espalharam pelo país, formando academias no interior por causa da lavoura. Lins, Mogi das Cruzes Suzano, Bastos. O que eu tive mais contato foi em Suzano, Katsumi Naito, que eu fui nas Primeiras competições. Meu pai queria que eu treinasse Judô, mas não competisse.. Eu arrumei o kimono e disse a papai que só era demonstração e não competição. O tatame em baixo era serragem, duro demais, caroço. O kimono enferrujado, muita poeira, terra e eu fui para Suzano. Lutei a primeira e Segunda, ganhei. A terceira luta o adversário pegou com o cotovelo na minha vista e inflamou. A minha preocupação era meu pai ver meu olho inchado e não me deixar treinar mais.
As primeiras regras de Judô foram por volta de 1967, tenho por escrito. A federação de pugilismo controlava todas as lutas de Ringue, até 1957 e 1958 e daí surgiu a idéia de formar a Federação Paulista de Judô com três clubes, Paulistano, Pinheiros e outro, pois já tínhamos boa estrutura.
Com a imigração japonesa, vieram muitos judocas que se espalharam pelo Brasil e formaram suas academias. Foram quatro só que Conde Koma se destacou mais, ficou perto dos Gracie. Os Gracie não aceitaram o Judô e até hoje não aceitam, foram para o jiujtsu. O Judô é mais difícil. Quem é muito forte não perde tempo com aquelas técnicas. O judô tem muito mais técnica que o Jiujitsu.
Meu nome é Luiz Tambucci, nasci em 16/ 08/ 22, tenho 66 anos de prática do Judô. Iniciei em 1931 com os irmãos Ono, sou 9º Dan.
Os todos foram importantes, em destaque o professor Ono.
O sensei Ono na época era a mais bem montada. Primeiro numa casa e depois no Prédio Martinelli. Era simples o tatame, de lona, encerado, lugar bem limpo. No prédio Martinelli, o tatame era de palha de arroz. Na casa era serragem baixa.
Característica especial do sensei, era totalmente diferente dos demais , sempre rindo, sorriso agradável. A importância do sensei Ono, foi um dos maiores divulgador do Judô no Brasil, principalmente em São Paulo, ele abriu o leque.
A minha turma: Dr Lúcio Franco, Sakai, Ibiapava Martins, Mário Shimata, Alencar Butti e outros, esses os principais. Vieram para divulgar o Judô no Brasil, por orientação do Jigoro Kano. Eles vieram especialmente para divulgar o Judô e Jiujtsu. O que mais se destacou foi o Mitsuyo que se fixou no Rio de Janeiro e Belém - e trabalhou da mesma forma que o Ono trabalhou, aceitando desafio de todo o mundo e diz as mil lutas de Conde Koma e pela História nunca se soube que perdeu uma luta, foi grande percursor das artes marciais que seria o Jiujitsu e o Judô, Ele foi o primeiro do meu conhecimento, se houve outro era muito fechado. O imigrante japonês era difícil a língua, se fixavam no interior, viviam confinados. Alguns italianos ajudavam eles com mímica. Faziam o judô fechado, tipo fundo de quintal.
Tive muito contato com os Gracie. Tive muitos alunos que lutavam com os alunos deles. Ganhavam, apanhavam. Hoje você é campeão amanhã você perde.
As principais Cidades que foram divulgadoras do Judô, que tiveram colonização Japonesa foram: Suzano, Mogi das Cruzes, Bastos, Araraquara, Avaré e Lins. Umacakeba, era de Bastos, o pai dele foi divulgador do Judô.
As academias foram se formando de professores do interior, dos pais e depois os filhos. Como São Paulo era muito grande, principalmente a cidade de São Paulo, o Judô crescia muito, começou a formar academia aqui, academia ali. Só o Ono chegou a ter 21 filiais e eu, Tambucci tive 11 filiais. Germano em Campinas, Fagundes em Jundiaí, Uadi em Rio Claro, mais existe muito mais e bons professores.
O campeonato era assim, convidava a academia para lutar em Suzano e nós íamos de kimono embaixo do braço, até de bicicleta.
As regras era wazari e ippon, Onsei-Kachi por vantagem e no chão por desistência. Tinha um arbitro só. O arbitro entrava e tinha que saber tudo, era o chefão. Às vezes, o arbitro queria ser agradável para um ou para outro, e sai até briga, no bom sentido, mas era por opiniões divergentes. Não dava empate, era vitória. Fui em Rio Claro como arbitro e tinha os melhores atletas de São Paulo de época, participou o Uadi. Eu era um dos árbitros mais graduados. Em uma luta, que terminou empatada, dei vitória para um. Eles queria me matar.
Uma luta que me marcou, em cima do ringue, entrei em seoi nague e joguei em ippon o atleta caiu na corda e voltou em cima de mim. Quebrei a costela e a luta acabou.
As primeiras academias foram filiadas a Federação Paulista de Pugilismo (F.P.P.). Para obter alvará tinha que preencher alguns requisitos, porém muitas trabalhavam na clandestinidade. Depois a própria FPP , aconselhou-nos a formar uma Federação e um grupo de abnegados fizeram os estatutos.
Os principais e a primeira diretoria foi Lúcio Franco , Edgar Ozon, Watanabe, entre outros. A Federação Paulista de Judô ( F.P.J.) foi Fundada em 17/04/1958 e a Confederação Brasileira de Judô (C.B.J.) em 18/03/1969 aí que começou políticas, luta de poder, querer eleições para novo presidente, a parte desagradável da F.P.J., muita perseguição, ou você está comigo ou com ele, não interessando se foi bom ou ruim. Essa é a História negra do Judô. Eu pessoalmente fui muito perseguido, mas pela conseqüência do próprio sistema. As pessoas que me perseguiam, não aceitavam minhas idéias, ou que faziam por trás de mim muitas fofocas, hoje são minhas amigas e não é ético citá-las.
O motivo das perseguições eram por ter idéias diferentes., por ter vindo do Ono, por não ser bem aceito em alguma parte, mais era a política administrativa.
Além de mim, todos fizeram a História do Judô, mal ou bem todos contribuíram. Sem citar nomes, porque eu tenho tantos amigos que Não poderia deixar de citar algum.
As vezes, é necessário ter uma coisa ruim, para consertar e deixar algo bom. Caso contrário, seria fácil. Não é a coisa errada que pode prejudicar, são idéias erradas, como se tem até hoje. Assim como tudo de bom que o atual presidente da F.P.J., Chico (Francisco Carvalho Filho) fez para o Judô, ele tem uma infinidade de inimigos. Eu conheço essas pessoas e ele pensa que não tem inimigos. Não é que sejam inimigos, tem idéias diferentes. Na minha opinião, o Chico foi e é ainda um dos melhores presidentes que a F.P.J. já teve, que mais abriu o campo.
As academias estão passando dificuldades, não estão bem estão acabando. Ainda Hoje, eu pago para dar aula de Judô. Os companheiros que não podem fazer filantrópicamente, sofrem. O Judô é um sacerdócio. Tive muito dissabor no Judô e muitas alegrias. O dissabor que vá para o espaço e as alegrias que me fiquem presente.
Eu sei que tenho muitos amigos sinceros e não sinceros. As grandes decepções que tive no Judô, foi quando preparei uma equipe para o torneio Benemérito por equipe. Faltando poucos dias para as inscrições, veio um por um pedindo a transferência para outro clube e eu já estava com a equipe na F.P.J. e era uma equipe que vinha sendo campeã vários e vários anos, inclusive nos individuais. Eram grandes atletas bem preparados, tecnicamente dentro do nível agradável do Judô e eu que precisava deles e eles foram defender o título para outro clube. Alegria era ver meus atletas me representar. Aquilo que eu não pude fazer quando era moço. Ganhava bonito com técnica que era o verdadeiro Judô. Aquilo que os japoneses admiram.
Ser 9º Dan é muita responsabilidade, você tem que tomar cuidado até no que fala, no que pensa. Muitos amigos se aproveitam do que você fala e vai lá fora dizer quem falou foi o professor e se acoberta atrás de mim.
No Brasil se não me engano tem seis 9º dan, Vivos tem Suga, Shinorrara, Messias, Ono. Um morreu Ogawa, tem o filho dele..
O Judô para mim é minha vida. Consegui dar grande formação para mais de 10.000 atletas, 10.000 crianças, 10.000 pessoas. Ë a minha vida, porque eu gosto e se hoje eu me sinto jovem, porque faço Judô e se todas as pessoas pensarem como eu, o Judô seria um grande esporte para a comunidade.
O Judô quando foi para as Olimpíadas, foi a coisa mais bonita que existiu, o que foi ruim foi as mudanças das regras. Quando você fazia Judô, em que as pontuações eram wazari e ippon e não Havia muito limite de tempo, era mais bonito. Quando passou para koka, yuko, wazari, ippon, técnicas de Chão e o tempo de ataque, começou a perder parte do seu objetivo, da sua técnica, porque os atletas começaram a fazer ataques fáceis, simulados para não serem penalizados com shido e chui. Pelo tempo você tem 20 segundos, hoje é 10 ou 5 segundos para tentar uma técnica ou projeção e tem que se usar tanta força. Não se vê Hane goshi, raramente tomoe nague, antes quando era baseada no ippon, o atleta tinha tempo suficiente para trabalhar, não vencia porque era melhor, vencia porque pegou o tempo certo da projeção. Você via um Judô bonito, mas era feio para quem ia assistir. Hoje o judô é feito para quem vai assistir, quem vai apreciar a luta.
O Judô é uma educação física. Para cada esporte tem exercício para a finalidade. Judô para criança é enjoativa. A idade ideal é 9 a 10 anos com poucas competições. Porém comercialmente se faz diferente. Qualquer academia que dá aula para o judô de criança, 50% desistem. Nas escolinhas é tudo negativo, a criança não tem formação óssea, tem cartilagem. Tudo que precisa pensar, a criança enjoa. Deixa seqüela horrível para a criança é perigoso machucar a criança. Mesmo adulto enjoa, de cada dez ficam dois.
As primeiras academias Ogawa, minha Tambucci, Kurachi e depois surgiram outras, agora tem muito. Tem artes marciais para feijoada.
Tenho uma academia aberta, é uma das mais velhas, foi fundada em 1941, com um grupo de 15 alunos. Eu tinha 19 anos. Tinha uma turma que treinava no Ono, e como Não dava certo o horário, eu montei uma academia e eles vieram treinar na minha academia Orestes, Alencar, Carlos Butti.
Experiência de vida, me orgulho do meu professor, de Ter recebido ensinamentos de Naito e Takeu Yama, e me orgulho de Ter contribuído muito para a formação de muitas crianças e Homens.

Anexo 3- Entrevista com o sensei Uadi Mubarac

Uadi Mubarac, sou 8º grau, pratico Judô 50 anos. Meu primeiro esporte foi natação, depois levantamento de peso e depois Jiujitsu e Judô junto. Não sabia a diferença de Judô e Jiujitsu. O jiujitsu era muito diferente de agora. Só havia vencedor no Jiujitsu quando desmaiava, desistia ou morria. Era desafio, não havia campeonatos. Então começava com o desafiante, e ia até um ganhar. Hoje não, já há técnica, regras, contagem de pontos. Depois comecei a praticar o Judô, fiz vale-tudo Também, pratiquei Vale-tudo no Rio. Fiz vários vale-tudo, mas no Rio fiz no programa do Hélio Gracie, chamava os "Heróis do Ringue". Eu e um amigo meu Juan.
Meu professor foi o João Gonçalves, muito bom. Não haviam academias lutavam a beira da piscina, no gramado. A primeira vez que fizemos, não era tatame, fizemos num acolchoado de algodão na avenida um (Rio Claro). Foi em 1956 que registramos nossa academia, foi junto com a Federação Paulista de Judô (F.P.J.) e daí fomos aprendendo como se praticava o Judô, o que era golpe, o que não era golpe. Daí começou a subir a academia, começou a vir gente, meus irmãos conhecidos pelo Brasil inteiro, Luiz e Paulo Mubarac, campeão paulista, Brasileiro, pan-americano. O João nos acompanhava, ele morava no Rio, era um atleta quase perfeito. João treinou com muita gente que conhecia Judô, esteve em cinco olimpíadas como atleta e duas como técnico. Eu comecei a conhecer a parte técnica o nague no kata.
A primeira vez que fui fazer exame para faixa preta, não era a federação que fazia, era um representante da Kodokan que fazia. Sensei Fukaia, foi em 1962 ou 63 meu 1º grau. Depois foram os meus irmãos também. Não me lembro quando foi que a federação decidiu que era ela que deveria fazer os exames. Tinha uma comissão que fazia o exame da faixa marrom para preta, e melhorou muito, pois os alunos tinham que saber o nague no kata, go kiô, shime waza.
O Judô foi evoluindo muito, aprendendo as técnicas e também a filosofia é uma parte da vida das pessoas fora do dojo representa o jogo, onde ele aprende a cair, a se levantar, a respeitar e o mais importante, aprendem a perder. O judoca perdeu aquela competição, mas na verdade, não perdeu nada, não perdeu a vida, uma vez que ele pode treinar e ganhar noutra luta. O judô não é formar campeões, campeão vem com o tempo, o desafio é fazer homens de verdade, homens honestos, respeitador, íntegro. Essa é a filosofia do Judô e por isso o Judô cresceu muito. Mostrar a pessoa que ela pode enfrentar outra sem maldade, sem ódio, por isso que ele aprende a perder.
Para mim o Judô é uma "filosofia de vida", porém há muitos professores que não vem assim, tem que ensinar a filosofia do Judo para os seus alunos. Esse é o meu modo de pensar e de muitos professores que eu conheço como João, Fukaia, Suga.
A "filosofia" é muito importante dentro do Homem, não é só lutar, querer matar o outro. Ë um esporte muito gostoso de praticar e de muito respeito.
Foi em 1984, que foi oficializado as competições femininas, A primeira competição paulista feminina foi em Americana, não sei se foi em 1985, não me lembro.
O Campeonato Paulista era só feito em São Paulo, porque eles achavam que no interior não tinha condições, não ia dar certo. Em 1975, era presidente da F.P.J., o Sérgio Bahi, e eu dei a idéia para fazer em Rio Claro, que a cidade pagava tudo. O prefeito, Nevoeiro Júnior, era meu amigo, acertamos tudo e deu certo e assim mostramos que o interior tinha condições de patrocinar um Campeonato Paulista de Judô. Outros campeonatos que nós fizemos: Jogos Abertos do Interior Paulista, Troféu Bandeirantes (que havia naquela época) foi realizado no interior. Agora estão criando outras competições, como Campeonato de Faixas. Eu dei a idéia de fazer o campeonato de região contra região, só por equipes. Naquele tempo tinha 10, 11 e até 15 equipes e foi um sucesso, tinha masculino e feminino. Depois acabou, as cidades não tinham dinheiro para patrocinar. Como hoje os Jogos Abertos do Interior, quem não tiver dinheiro para patrocinar, para levar os atletas, não pode participar.
A minha vida no Judô foi assim, conheci grandes campeões, estive no Japão fazendo estágio, mas quem nos deu essa chance, o caminho, e o dos meus irmãos, foi o Dr. João Gonçalves um grande amigo a quem eu respeito muito, respeito mesmo e todos os professores do Judô.
Conhecemos Família Japonesas e íamos treinar com eles no sítio.
Cidades mais antigas que tiveram Judô: Campinas, Rio Claro, Araçatuba, Marília, Avaré (terra do Matheus Sugizaki, que foi o primeiro brasileiro campeão do mundo, Universitário, na Espanha), Naquela época, em que eu lutava, os melhores lutadores eram, Matheus, Luiz e Paulo Mubarac, Odair Borges, Miguel Suganuma, Milton Lobato, tinha muitos nissei bons lutadores. Umakakeba , Era japonês e não deram para ele o título de campeão porque era Japonês. Daí ele precisou se naturalizar .Cada academia ia participar do campeonato paulista, não havia eliminatória. Cada academia do Estado podia inscrever dois. Depois criaram as eliminatórias, por Ter aumentado o número de participantes, com o aumento das academias. Devido a esse aumento a F.P.J. achou por bem, no tempo do Naito, fazer as eliminatórias, criaram as regiões e cada região mandava dois da eliminatória para o campeonato paulista e foi criando mais classes. De primeiro era apenas sênior, agora tem juvenil, pré-juvenil, infantil e outras classes e assim o judô expandiu. Foi um trabalho muito bem feito pelos professores de judô e por isso hoje ele está em alta.
Era assim uma academia combinava com as outras e fazia competições entre elas. Tinha várias associações em São Paulo, Budokan, Associação dos Faixas Pretas e faziam competições entre eles. Depois de criada as regiões em São Paulo, que tem 4 ou 5 regiões, eles faziam para ver o campeão de São Paulo. O campeão das regiões do interior iam para São Paulo e de lá saia o campeão Paulista (estadual).
Os Jogos Regionais as competições de judô foi iniciado em 1965, em Rio Claro, mais teve nos Jogos Abertos, Em 1966, eu pedi que introduzisse nos Jogos Abertos do Interior, o Judô. A comissão da cidade ( C.C.E. hoje não sei como se chama), convidou várias cidades.
A primeira vez que entrou nos Jogos Regionais participaram umas 12 cidades, Nos Jogos Abertos teve 24 cidades, foi um êxito, então acharam que judô poderia entrar nos Jogos Abertos do Interior. Começou a vir mais gente, foi oficializado e o Judô se tornou esporte oficial dos Jogos Abertos do Interior. Fui eu que introduzi, aqui em Rio Claro, e fiz também, junto com o João Gonçalves os primeiros regulamentos. Agora modificaram um pouco, muitos judocas se formaram em Educação Física, os professores de Educação Física foram entendendo de Judô e foi melhorando, hoje está em alta.
Em 1964, Houve a mudança de regras, onde o Judô se tornou mais competitivo. Em 1964, depois das Olimpíadas do Japão, o Judô foi aceito como esporte olímpico e começou a se modificar. O Presidente da Federação Internacional e da Confederação Brasileira começaram a modificar, os professores foram criando área de perigo, faltas e foi chegando como hoje está. Usava kimono branco, hoje usa azul também.
Sobre as primeiras academias do Brasil, quando eu era garoto, eu ouvia falar na academia Ono, no prédio da Martinelli. Eu estive uma vez lá. Akira, filho do Ono, lutava muito bem, eu lutei com ele uma vez, fui jogado de tudo quanto era jeito. Ele era baixinho, pequenino e bom lutador e dava seoi otoshi, eu joguei ele algumas vezes, mais o Akira me jogou muito mais.
No interior fui eu e o Borges, eu tinha em Jundiaí e Rio Claro e Campinas. Depois veio Limeira, Americana, Sumaré, no final da Paulista tinha Marília, Araçatuba, Avaré (boa academia) muito velha, era do pai do Matheus (Sugizaki).
A história do Judô tem bastantes nomes: João Gonçalves, Fukaia, Miguel Suganuma, Suga, Ogawa ( já falecido), Naito, Sérgio Bahi, Watanabe, Hideo, Hatiro. Temos hoje um presidente muito bom, moço, rapaz atirado, honesto, faz tudo pelo judô: o Francisco Carvalho Filho.
A federação foi em 1956, a confederação, CBJ, foi depois da FPJ, não me lembro a data. Federação de Pugilismo. Diploma vinha do Japão e era escrito em japonês e francês.
Em 18/03/69 foi criada a CBJ, o primeiro presidente foi o Dr. Lúcio (advogado), depois veio o Naito . Entrei na federação em 1965, não havia regiões, só academias. Em 1968 fui Delegado Regional.
Dificuldades porque ninguém entedia o que era o Judô. Achavam que era um esporte que um arrebentava o outro. Os japoneses ajudaram muito, ensinavam até em escola e explicavam que não era violento e sim exigia movimentos, técnica, velocidade, treino, não pode dar socos, pontapés e tem que aprender a cair primeiro. Assim o pessoal foi entendendo realmente o que era o Judô. A dificuldade com os alunos, o pai não deixava seus filhos treinar por achar que era violento.
A melhor informação da minha vida foi ter aprendido Judô: aprendi a respeitar, aprendi a ser honesto, aprendi a passar coragem para os meus alunos, respeitar o adversário, sem o adversário não tem campeões, eles devem o título para o seu adversário. A formação de Judô é muito boa para as pessoas e a juventude.
Eu copiei as chaves do Campeonato Mundial e introduzi nos Jogos Regionais e Abertos e até hoje vale não houve modificações. Durante 10 anos eu e a Lurdes (esposa) organizamos as chaves.
A importância para mim, do Judô para a Sociedade é importante porque aprende a respeitar as pessoas, a humildade, que se aprende no Judô, muitas pessoas que não praticam não tem. O maior Homem do Universo foi Cristo que é Humilde.
Tive tristezas e também muitas alegrias no judô.
Antigamente era defesa pessoal, depois foi formando campeonato. Antes não havia peso, foi colocado peso. Virou um esporte. A mudança para um esporte foi uma mudança positiva, os judocas treinam para conquistar títulos, para melhorar a saúde, para sua própria defesa. Em tudo na vida o Homem quer ser vencedor, mas também tem que ser um vencedor com respeito. Passar para o esporte o judô foi um benefício.
Em relação a educação física: Antigamente eu não dava valor a Educação Física. Os alunos estudavam, viam livros e parecem que não sabiam nada. Hoje penso diferente, vejo que a Educação Física faz um bom trabalho, não só no Judô, mas também em outros esportes: vôlei, basquete, etc. Antigamente fazíamos tudo a olho, não tinha quem nos guiasse, hoje não, Assim, você faz isso que é bom para isso, faz aquilo que é bom para aquilo, corre ali que é bom, etc. O atleta ganhou muito com a Educação Física. Ele vai manter o potencial do atleta. O professor de Educação Física está agora trabalhando com todos os esportes.
Um fato curioso: em 1967, no final de um campeonato, Paulo e Utiro Umakakeba lutavam pelo título. Paulo atacava e o outro defendia. Paulo atacou e deveria dar wazari e o juiz (Nogueira, técnico da Seleção brasileira várias vezes) não deu. O outro ganhou a luta. Eu perdi a calma, pulei a cerca para bater no juiz. Isso não se faz, depois fui aprendendo a me socializar. Há necessidade de socializar o judoca.


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