Regalias
de país-sede, como área de aquecimento e espiões, dão à equipe inédito 1º lugar
masculino no Mundial do Rio
Tiago Camilo, ouro nos meio-médios, é eleito o melhor judoca e repete o feito de
João Derly em seu primeiro título, há 2 anos
O Brasil passou de coadjuvante a protagonista do judô internacional nos últimos quatro
dias. Perdeu para o Japão a liderança no quadro geral de medalhas apenas no último
combate do Campeonato Mundial, encerrado ontem no Rio.
Os dois países tiveram três ouros, mas o berço do judô venceu por ter duas pratas.
Pela primeira vez na história, o Brasil ficou topo do quadro masculino de medalhas.
Com os ouros e um bronze, o título havia sido assegurado antes mesmo da rodada final do
último dia. De quebra, o meio-médio (até 81 kg) Tiago Camilo, 25, foi considerado o
melhor atleta do certame. Ele sagrou-se campeão ao vencer seis de suas sete lutas por
ippon.
Para atingir o desempenho inédito, a equipe teve como trunfos muito mais que a vibração
da torcida na Arena Multiuso. "Temos um autêntico QG aqui", brincou a
treinadora Rosicléia Campos.
Não é uma definição pretensiosa. A Folha teve ontem acesso ao espaço destinado a
equipe nacional, que ficou isolada dos demais competidores no palco do Mundial.
Na avaliação da comissão técnica, a estrutura pesou decisivamente para o sucesso.
"As grandes forças do judô no mundo costumam ter disputas muito acirradas. O nível
é parelho. Tirando o Tiago, que ganhou disparado, todas as outras categorias foram
disputadíssimas. Os detalhes proporcionaram a diferença a nosso favor", disse Ney
Wilson, diretor técnico da CBJ (Confederação Brasileira de Judô).
Enquanto todos os outros atletas ficavam apinhados juntos no tatame de aquecimento,
esperando para lutar, os brasileiros tinham espaço privativo.
Mas a diferença não era só a separação geográfica -algo corriqueiro com o time da
casa em eventos internacionais.
Os brasileiros contaram, pela primeira vez, com suporte de uma equipe multidisciplinar.
De um camarote no alto da arena, dois cinegrafistas -ambos faixas pretas- filmavam todos
os rivais dos brasileiros.
Simultaneamente, um estatístico, também judoca, destrinchava numericamente as
preferências dos rivais. "Ele contabilizava o número de ataques iniciados com um
dos braços ou com uma das pernas, por exemplo", explicou Wilson.
Ao todo, foram gravadas 32 horas de lutas, que além de terem servido para estudar os
estrangeiros no Rio, serão usadas na preparação para Pequim.
"Antes das semifinais, por exemplo, tínhamos como avaliar até quatro lutas
anteriores dos rivais", narra o dirigente, idealizador de uma inédita mesa redonda
dos tatames.
Os técnicos que trabalham diariamente com todos os atletas nos clubes estavam no Mundial
e avaliavam as cenas dos pupilos e rivais em conjunto com a comissão técnica.
Além da tática, o aspecto físico também foi trabalhado com cuidado especial. Com
maratonas de mais de 12 horas de competição, a equipe consultou mais do que nunca a
nutricionista. "O trabalho dela, no controle de peso, nos cuidados com a hidratação
e na definição dos melhores alimentos a serem ingeridos entre as lutas e o momento de
fazê-lo foi decisivo", avalia Wilson.
Além do costumeiro acompanhamento médico, os brasileiros tiveram à disposição um par
de fisioterapeutas. "Isso nos permitiu recuperar os judocas mais rápido. Os dois
atuavam simultaneamente."
Não por acaso, os judocas nacionais, que tiveram ainda o suporte de uma psicóloga e de
um quiroprata (que aliviou também as tensões da comissão técnica) sempre aparentavam
estar mais dispostos que os rivais nos combates noturnos, em que se definiram os pódios.
O resultado disso está no topo do quadro de medalhas.
Seleção aspira mas patrocínio - A equipe de judô espera agora mais
patrocínios. "Espero que a inédita vitória no quadro de medalhas masculino atraia
mais investidores", diz João Gabriel Schlittler, bronze no peso pesado. Já a CBJ
espera que o desempenho da equipe consiga convencer o COB a incluir a nutricionista da
entidade na delegação olímpica.
Luís Ferrari
Folha De São Paulo |