Emoções no tatame

Divulgação JUDOBRASIL
17'Dez'2001

Alegria, tristeza e muito choro marcam a Seletiva de Formação da Seleção Brasileira de Judô, em Taguatinga

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O judoca paulista Luiz Francisco Camilo Júnior, 22 anos, não ligou para o preconceito, nem tomou conhecimento do público no ginásio. Caiu no choro assim que derrotou o conterrâneo Marcos Antônio Inácio com um ipon (golpe definitivo). Deixou o tatame aos prantos e quanto mais era cumprimentado, mais chorava. Minutos depois, já sentado na arquibancada, parecia controlado enquanto arrumava a mochila. Mas as paradas para esconder o rosto no quimono denunciavam que as lágrimas não cessavam.

Apesar do visível esforço para se controlar, a emoção falava mais forte. Luiz Camilo Júnior acabara de conquistar a tão sonhada vaga na equipe brasileira de judô, na categoria leve. A Seletiva de Formação da Seleção Brasileira de 2002 foi disputada no sábado, na Associação Portuguesa (Pistão Sul de Taguatinga) e reuniu 158 atletas de vários estados.

‘‘É uma vergonha, né, um marmanjo deste tamanho chorando assim’’, brincou, após um rápido banho. Com os olhos vermelhos, mas sem chorar, justificou o motivo da emoção. ‘‘Eu vinha beliscando essa vaga desde 1998. Chegava bem perto, mas perdia na última luta.’’

Foi assim no Campeonato Brasileiro deste ano, que dava uma vaga automaticamente na Seleção para os campeões. Luiz Camilo Júnior chegou à final, porém acabou derrotado. Uma grande decepção. ‘‘Agora, vou procurar um celular, tenho de ligar para a família e contar.’’

Família, por sinal, que já tem um integrante famoso. Luiz Camilo Júnior é irmão do judoca Tiago Camilo, medalha de prata nas Olimpíadas de Sydney. ‘‘Ele não veio comigo porque está se preparando para o vestibular, amanhã (ontem).’’ Luiz Camilo também pretendia fazer a prova, para educação física. Tinha viagem marcada para ontem de manhã. E estava confiante em mais uma vitória. ‘‘Do jeito que estou iluminado...’’

As lágrimas de Luiz Camilo foram de alegria, mas a seletiva foi marcada também por muito choro de tristeza. Por gritos de empolgação e de dor. Festa de um, ao lado da decepção e desconsolo do outro. Caso da judoca Lílian Lenzi, de Cacoal, em Rondônia. Ela chegou à final da categoria leve, mas não conseguiu superar a goiana Adriele da Silva. O choro começou ainda no tatame e continuou por mais meia hora. ‘‘Estou arrasada. É duro você chegar tão perto e perder. Sofro tanto onde moro e foi tão difícil chegar aqui’’, afirmou, novamente aos prantos.

De família humilde, Lílian, de 16 anos, teve de enfrentar uma maratona de 36 horas de viagem de ônibus. E só disputou a seletiva graças ao seu técnico, Antônio Marques Nunes. Foi ele quem arrecadou dinheiro com os comerciantes da cidade para as refeições e as passagens. Parte do dinheiro da comida ia ser gasta com hospedagem se a Federação Metropolitana de Judô (Femeju) não tivesse conseguido hotel para eles. ‘‘Não temos patrocínio e a dificuldade é grande. Só o fato de ela ter chegado à final para mim já é uma grande conquista’’, ressalta Nunes. ‘‘O que me consola é que eu ainda sou nova e tenho muitas seletivas pela frente’’, completa a judoca.

A tensão não atinge somente os atletas. Os parentes e amigos que os acompanham também sofrem muito na arquibancada. Na última luta da seletiva, para a categoria meio-leve, uma senhora chamou a atenção pelo nervosismo. Andava de um lado para o outro da arquibancada, se agarra à grade e suplicava: ‘‘Por favor, meu Deus, por favor, meu Deus’’. Pedia a vitória de um judoca de quimono branco. ‘‘Vai, Henrique; cuidado, Henrique; por favor, meu Deus.’’

Fim da luta, o judoca de quimono branco — o paulista Henrique Guimarães, bronze nas Olimpíadas de Atlanta — ganhou a vaga. ‘‘Obrigada, meu Deus’’, agradeceu a senhora, saltitante. Era a mulher de Henrique, Andréia Guimarães. ‘‘A gente sofre muito do lado de fora’’, justifica a ex-aflita. Henrique, calmo, ri do nervosismo da esposa. ‘‘Já estou acostumado. Nem escuto mais’’, brinca.

Recompensa

Superar os limites físicos é outro obstáculo para os judocas. Às vezes é preciso esquecer a dor para continuar na disputa. Ingrid Monnerat, 17 anos, superou a dor no punho esquerdo para ficar com uma vaga na categoria meio-médio. Dos 20 brasilienses na disputa, foi a única a conseguir lugar na Seleção Brasileira.

‘‘Todo mundo sonha em chegar a esse ponto, mas tem de passar muito tempo sofrendo, levando porrada. Meu punho está doendo muito, mas lá a adrenalina é tão grande que você não sente. Se meu pé quebrasse eu continuaria’’, garante.

Conquistar uma vitória como essa é, de acordo com Ingrid, uma grande recompensa. ‘‘Você deixa de sair à noite, não bebe, tem de controlar a alimentação, cuidar da parte física. Mas depois pode dizer ‘eu sou uma das melhores do país’. Isso é o que faz valer a pena.’’

A seletiva de Brasília foi realizada para completar as 20 vagas restantes na equipe de 64 atletas. No ano que vem, a Seleção Brasileira terá uma série de torneios preparatórios. Os melhores em cada categoria vão representar o País nas principais competições: os Jogos Sul-Americanos, em Bogotá (COL), em abril; o Grand Prix Mundial, em maio, no Brasil (o local ainda não foi definido); e, a mais importante de todas, a Copa do Mundo por Equipes, em Lausanne, na Suíça, no final de agosto.

C
Cida Barbosa
Correio Braziliense


Para registro

A Confederação Brasileira de Judô informou que: "Em casos excepcionais, a comissão técnica da CBJ (técnico da equipe masculino, técnico da equipe feminina, preparador físico, médico e coordenador técnico) poderá indicar atletas, com o aval do presidente da mesma." Como nenhum nome, motivo ou condição foram explicitados, resta aguardar para saber o que a entidade entende por "casos excepcionais".

Vamos à lista dos clasificados (PRÉ-CLASSIFICADOS e CLASSIFICADOS NO ÚLTIMO FINAL DE SEMANA):
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FEMININO MASCULINO
Ligeiro
Andréia Berti Rodrigues (SP)
Andréia Satie Fujimo (SP)
Daniela Duque E. Polzin (RJ)

Taciana de Lima (RS)
Meio-leve
Fabiane Mayumi Hukuda (RJ)
Janaína Pereira Rabelo (SP)
Cátia da Silva Maia (SP)

Marli Suzuki (SP)
Leve
Tânia Cristina Ferreira (RJ)
Roberta Bittencourt (SP)
Fernanda Pires (SP)

Adriele da Silva (GO)
Meio-médio
Vânia Yukie Ishii (RJ)
Márcia Martins da Costa (SP)

Christiane Parmegiano (SP)
Ingrid Monnerat (DF)
Médio
Cristina Silva Sebastião (SP)
Kelly Cristina Silva (RJ)
Danusa Shira (SP)

Luciana Ohi (SP)
Meio-pesado
Edinanci Fernandes Silva (SP)
Rosangela Silva Conceição (RJ)
Deborah Almeida de Souza (RJ)

Claudirene César (SP)
Pesado
Priscila de Almeida Marques (SP)
Viviane Aparecida de Oliveira (SP)

Linda Marrie Calderado (RJ)
Luzia Pessoa (RJ)
Ligeiro
João Derly Nunes Júnior (RS)
Alexandre Dae Jin Lee (RJ)

Thiago Takara (SP)
Giovani da Cunha (SP)
Meio-leve
Reinaldo Vicente dos Santos (SP)
Moacir Mendes Junior (RS)

Leandro da Cunha (SP)
Henrique Guimarães (SP)
Leve
Sebástian Rafael Dias Pereira (RJ)
Sérgio R. S. Oliveira (SP)
Felipe Costa Fuchs (RS)

Luiz Camilo Júnior (SP)
Meio-médio
Flávio Augusto Honorato (SP)
Alexsander José Guedes (SP)
Flávio Vianna de U. Canto (RJ)

Marcel Abner de Aragão (RJ)
Médio
Edelmar Zanol (SP)
Renato Dagnino (SP)
Angelo de Paiva e Silva (RJ)

Fabrício Lusa (RS)
Meio-pesado
Mário Sabino Junior (SP)
Leonardo Gérgis F. Leite (RJ)

Luciano Correa (RJ)
Daniel Dell’Aguilla (SP)
Pesado
Daniel Andrey Hernandes (SP)
Fabiano Zamboneti (SC)

Alexandre Roque (SP)
Joseph Kleber Guilherme (SP)

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