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O judoca paulista Luiz Francisco Camilo Júnior, 22 anos, não ligou para o preconceito,
nem tomou conhecimento do público no ginásio. Caiu no choro assim que derrotou o
conterrâneo Marcos Antônio Inácio com um ipon (golpe definitivo). Deixou o tatame aos
prantos e quanto mais era cumprimentado, mais chorava. Minutos depois, já sentado na
arquibancada, parecia controlado enquanto arrumava a mochila. Mas as paradas para esconder
o rosto no quimono denunciavam que as lágrimas não cessavam.
Apesar do visível esforço para se controlar, a emoção falava mais forte. Luiz Camilo
Júnior acabara de conquistar a tão sonhada vaga na equipe brasileira de judô, na
categoria leve. A Seletiva de Formação da Seleção Brasileira de 2002 foi disputada no
sábado, na Associação Portuguesa (Pistão Sul de Taguatinga) e reuniu 158 atletas de
vários estados.
É uma vergonha, né, um marmanjo deste tamanho chorando assim,
brincou, após um rápido banho. Com os olhos vermelhos, mas sem chorar, justificou o
motivo da emoção. Eu vinha beliscando essa vaga desde 1998. Chegava bem
perto, mas perdia na última luta.
Foi assim no Campeonato Brasileiro deste ano, que dava uma vaga automaticamente na
Seleção para os campeões. Luiz Camilo Júnior chegou à final, porém acabou derrotado.
Uma grande decepção. Agora, vou procurar um celular, tenho de ligar para
a família e contar.
Família, por sinal, que já tem um integrante famoso. Luiz Camilo Júnior é irmão do
judoca Tiago Camilo, medalha de prata nas Olimpíadas de Sydney. Ele não
veio comigo porque está se preparando para o vestibular, amanhã (ontem).
Luiz Camilo também pretendia fazer a prova, para educação física. Tinha viagem marcada
para ontem de manhã. E estava confiante em mais uma vitória. Do jeito
que estou iluminado...
As lágrimas de Luiz Camilo foram de alegria, mas a seletiva foi marcada também por muito
choro de tristeza. Por gritos de empolgação e de dor. Festa de um, ao lado da decepção
e desconsolo do outro. Caso da judoca Lílian Lenzi, de Cacoal, em Rondônia. Ela chegou
à final da categoria leve, mas não conseguiu superar a goiana Adriele da Silva. O choro
começou ainda no tatame e continuou por mais meia hora. Estou arrasada.
É duro você chegar tão perto e perder. Sofro tanto onde moro e foi tão difícil chegar
aqui, afirmou, novamente aos prantos.
De família humilde, Lílian, de 16 anos, teve de enfrentar uma maratona de 36 horas de
viagem de ônibus. E só disputou a seletiva graças ao seu técnico, Antônio Marques
Nunes. Foi ele quem arrecadou dinheiro com os comerciantes da cidade para as refeições e
as passagens. Parte do dinheiro da comida ia ser gasta com hospedagem se a Federação
Metropolitana de Judô (Femeju) não tivesse conseguido hotel para eles. Não
temos patrocínio e a dificuldade é grande. Só o fato de ela ter chegado à final para
mim já é uma grande conquista, ressalta Nunes. O que me
consola é que eu ainda sou nova e tenho muitas seletivas pela frente,
completa a judoca.
A tensão não atinge somente os atletas. Os parentes e amigos que os acompanham também
sofrem muito na arquibancada. Na última luta da seletiva, para a categoria meio-leve, uma
senhora chamou a atenção pelo nervosismo. Andava de um lado para o outro da
arquibancada, se agarra à grade e suplicava: Por favor, meu Deus, por
favor, meu Deus. Pedia a vitória de um judoca de quimono branco. Vai,
Henrique; cuidado, Henrique; por favor, meu Deus.
Fim da luta, o judoca de quimono branco o paulista Henrique Guimarães, bronze nas
Olimpíadas de Atlanta ganhou a vaga. Obrigada, meu
Deus, agradeceu a senhora, saltitante. Era a mulher de Henrique, Andréia
Guimarães. A gente sofre muito do lado de fora,
justifica a ex-aflita. Henrique, calmo, ri do nervosismo da esposa. Já
estou acostumado. Nem escuto mais, brinca.
Recompensa
Superar os limites físicos é outro obstáculo para os judocas. Às vezes é preciso
esquecer a dor para continuar na disputa. Ingrid Monnerat, 17 anos, superou a dor no punho
esquerdo para ficar com uma vaga na categoria meio-médio. Dos 20 brasilienses na disputa,
foi a única a conseguir lugar na Seleção Brasileira.
Todo mundo sonha em chegar a esse ponto, mas tem de passar muito tempo
sofrendo, levando porrada. Meu punho está doendo muito, mas lá a adrenalina é tão
grande que você não sente. Se meu pé quebrasse eu continuaria,
garante.
Conquistar uma vitória como essa é, de acordo com Ingrid, uma grande recompensa. Você
deixa de sair à noite, não bebe, tem de controlar a alimentação, cuidar da parte
física. Mas depois pode dizer eu sou uma das melhores do país. Isso é o que
faz valer a pena.
A seletiva de Brasília foi realizada para completar as 20 vagas restantes na equipe de 64
atletas. No ano que vem, a Seleção Brasileira terá uma série de torneios
preparatórios. Os melhores em cada categoria vão representar o País nas principais
competições: os Jogos Sul-Americanos, em Bogotá (COL), em abril; o Grand Prix Mundial,
em maio, no Brasil (o local ainda não foi definido); e, a mais importante de todas, a
Copa do Mundo por Equipes, em Lausanne, na Suíça, no final de agosto. |