Atleta amador, uma mentira !
Dirigentes amadores, uma grande verdade.


Já há alguns anos que vimos defendendo a idéia de que a prática esportiva com vistas a obtenção de resultados em nível internacional já deixou de ser uma atividade amadora, descompromissada, abnegada e casuística, ou seja, é uma profissão.

Não há como afirmar que um atleta, que pretenda resultados relevantes, possa continuar treinando apenas nas horas livres, nos finais de semana, em alguns momentos do dia, sem acompanhamento sistemático, multidisciplinar e altamente responsável enquanto planejamento.

Sem sombras de dúvidas a prática esportiva que tenha como objetivos alcançar resultados em campeonatos internacionais está dirigida para "atletas profissionais". O tempo diário de treinamentos, as necessidades de acompanhamento multidisciplinar, os constantes avanços técnicos e táticos, os recursos complementares ao treinamento da modalidade (fisiologia, nutrição, preparo psicológico, marketing pessoal etc) exigem dedicação integral dos esportistas ao seu esporte.

Quando em 1987, por ocasião do primeiro curso de Jornalismo Esportivo propiciado pela Universidade de São Paulo - Escola de Comunicação e Artes e Escola de Educação Física - discutíamos a preparação de jornalistas esportivos dentro de uma visão profissional e já surgiam os primeiros passos no sentido da profissionalização do atleta. De lá para cá verificamos um sem número de avanços no comportamento de atletas. Passamos a observar os cuidados pessoais, a preocupação com a qualidade orgânica, a utilização de meios alternativos para o aprimoramento das condições gerais, o marketing pessoal como forma de garantir a continuidade dos treinamentos, a associação de atletas profissionais foi criada e uma série de outros pontos importantes para o aprimoramento do atleta.

Inúmeros profissionais do esporte reúnem-se, com certa freqüência para discutir mecanismos para a melhoria da performance de nossos atletas , que diga-se de passagem são poucos.

Dentre os pontos de importância para o preparo coerente de um atleta estão a periodização de seus treinamentos, o estabelecimento preciso dos momentos de cada fase do preparo, a escolha das provas ou competições que irá participar, a coincidência dos picos de rendimento com a fase das competições de maior importância, os períodos de afastamento e uma série de outras preocupações inerentes ao Esporte Profissional (ou como querem alguns - o esporte levado a sério). O atleta amador, hoje em dia, é uma grande mentira. Precisamos definitivamente aceitar que de amador ficou apenas a sigla e que não poderia ser diferente.

Por outro lado, aquele que se diz o melhor, o mais competente, o abnegado, o alvo de injustiças o Dirigente aperfeiçoou a sua incompetência e caminha em sentido oposto. Quanto mais os atletas buscam o profissionalismo, mais os dirigentes buscam o amadorismo. Senão vejamos:

Qual seria o fundamento científico, técnico, organizacional e promocional que justificaria a suspensão da seletiva para os atletas que deverão representar o Brasil nas próximas Olimpíadas ? Qual seria a verdadeira razão para alterar a data, colocando-a com apenas 30 dias do início das competições ?

Arrisco apontar alguns motivos. Manter os atletas tensos, nervosos e com a adrenalina em níveis elevados, transportando para a competição os desmandos comuns em nosso esporte faz render mais atletas brasileiros. Afinal, o atleta com mais adrenalina rende muito mais. O atleta com a incerteza de sua participação treina com mais afinco. O atleta com o fator surpresa estará mais atento e disposto para o evento. Psicologicamente é mais importante a insegurança da seleção realizada muito próxima ao evento do que um preparo "descompromissado" de um atleta selecionado a três meses da participação em sua prova.

Acredito que devem ser, com certeza, essas as referências teóricas dos dirigentes do Judô Brasileiro. A fundamentação científica em que sustentam suas atitudes devem estar em livros e pesquisas que ainda estão para serem publicadas.

Realmente, nós estamos vivendo uma revolução nos métodos de treinamento de atletas para uma Olimpíada e não sabíamos. O Brasil e, mais especificamente, os dirigentes do Judô tornaram-se os mais profundos conhecedores de periodização do treinamento esportivo e, surpreendentemente, colocam em prática seus métodos avançados de "comprometimento de resultados às vésperas de uma competição".

Outro fato que poderia ser considerado é que o evento mais importante para os atletas brasileiros neste ano (2.000), segundo os dirigentes esportivos, são os Jogos Abertos do Interior que serão realizados após as Olimpíadas.

Realmente, a única verdade que temos é que os dirigentes nunca foram tão amadores quanto o são neste momento. Mas, eles são os donos do poder. O poder de comprometer os resultados do esporte que eles dizem dirigir com competência

Basta senhores ! Sejam no mínimo humildes para contratar alguém que entenda do assunto. Qualquer atleta, com mínimo conhecimento sobre o esporte, saberia agir muito melhor que os senhores. Seria muito interessante que os senhores dirigentes do judô procurassem conhecer um pouco sobre o assunto. Afinal eles dirigem o quê ? Para quem ? Com que finalidade ? Talvez não saibam as respostas para estas simples questões básicas, que dirá sobre periodização ?

Que sejam breves esses dirigentes amadore$$$.

Daniel Carreira Filho

Prof. DANIEL CARREIRA - Mestre em Educação Física pela Universidade de São Paulo (USP), ex-coordenador da Secretaria de Esportes e Turismo do Estado de São Paulo, ex-integrante da seleção brasileira, Vice-campeão Pan-americano, Campeão Ibero-americano, detentor de vários títulos nacionais e estaduais (paulistas). CLIQUE AQUI para ler outros textos elaborados por ele.


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